Isto existiu claro, mas foi muito mais :)
Tentando não escrever um "Guerra e Paz", ficam algumas coisas:
1. Miúdos
Primeiro o principal! Os miúdos, aqueles que me tiraram do sério de tão reguilas que eram. Que fugiam com a vassoura quando eu precisava de limpar a cozinha, que adormeciam com a boca cheia de comida, que se empurravam para ir para o baloiço… e que me davam abraços fortes e sorriam quando chegava ao orfanato.
Sim, as histórias de cada um deles acorda-nos para uma realidade dura, mas vê-los ali no orfanato, protegidos e a brincar, fez-me ficar muito feliz por eles.
É claro que não é o ideal, mas no meio de tudo, são miúdos felizes! Que dependem das pessoas da casa e dos voluntários (mesmo sempre a ir e vir) para sentirem que há amor no mundo, e que eles também devem amar e ser amados - mas não vamos por aqui que vamos dar a uma discussão filosófica gigante.
2. House of joy (Casa da alegria)
O orfanato onde estive a trabalhar.
Era gerido pelas missionárias da caridade, criadas pela Madre Teresa de Calcutá. No orfanato dormiam os miúdos e as irmãs, também tinham outras senhoras para ajudar nas tarefas domésticas. Eram todas incansáveis e, embora eu não percebesse nada do que diziam, o facto de estarem sempre a sorrir, para mim foi mais que suficiente!
Fui cinderela enquanto estive lá: lavar a roupa, loiça, banho aos miudos, ensinar a contar, ensinar a lavar os dentes (não imaginam como estava a rebentar de orgulho depois disto), etc etc etc, tudo com um sorriso na cara e muitas vezes a cantarolar - isto não consegui trazer para cá, não há qualquer felicidade em lavar a loiça neste momento.
3. Casa e família
Os amigos são a família que se escolhe, e embora eu não tivesse escolha nos amigos que me apareceram nesta viagem, sou uma abençoada pelo que encontrei. O grupo de raparigas com que tive a sorte de partilhar os dias que passei lá, foi indiscritível! Dizem que um grupo de raparigas anda sempre à bulha, mas nós somos a prova do contrário, havia um respeito imenso tanto pelo espaço da outra como pela sua maneira de ser.
Foi bom acrescentar mais pessoas à minha "família", e foi bom ter a minha família de cá (e estou a incluir os amigos) comigo, à distância de uma mensagem, de um telefonema - fosse a que horas fosse :D
4. Andar na rua
De chinelos, sem preocupações, a deixar o tempo passar.
O tempo, ou o passar do dele, foi.. Diferente. Os dias eram lentos a passar, a hora de almoço dava para ir ao mercado dar uma volta ou dormir uma sesta, depois do trabalho dava para passear antes de jantar.
Andar na rua a qualquer hora sem problema, responder que "não obrigada" mil vezes à pergunta "tuk tuk?", sorrir a qualquer pessoa e receber um sorriso de volta - se fizesse isto cá iam pensar "que é que esta miúda quer?!"
No entanto, cheguei a meio da estadia lá e pensei "já?!?!?? como assim já?", o tempo pregou-me uma partida.
5. Auto-conhecimento
Ora bem.. No inicio a ideia era largar completamente o telemóvel, o facebook, dedicar-me à minha auto-descoberta e arrumar todas as questões que me ocupavam o pensamento e me prendiam.
Pois bem, descobri umas quantas coisas em mim, e uma delas foi: desligar-me do mundo não é para mim! Nem a minha felicidade está ligada a esses momentos de sossego.
Dá-me estrutura e ajuda-me a crescer saber que as minhas pessoas estão ali comigo, mesmo a uns quantos km de distância. Faz-me feliz partilhar os momentos que estou a viver com essas pessoas, e além disso não falar com as pessoas dá muito mais trabalho do que tagarelar um bocadinho de vez em quando.
Comecei esta viagem a pensar em estar sozinha e em tudo o que ia descobrir por estar centrada maioritariamente em mim… e lá vi que não preciso de estar sozinha para ter epifanias sobre mim, aliás para mim é bem mais fácil se tiver "espelhos" à minha volta.
E não há problema nenhum em descobrirmos mais sobre nós tanto sentada num templo, como com um copo de frozen margarita à frente.
Há mil histórias, como a da massagem que teve um banho de balde pelo meio, ou a boleia com o casal de indianos mais amoroso do mundo ou ainda a senhora do mercado que às tantas queria comprar a minha camisola…
É o tipo de viagem que acho que todas as pessoas que têm o ímpeto de ajudar devem fazer, é mais do que ajudar o outro, é acabar por ter uma perspectiva tão positiva que te obriga a dormir com um sorriso na cara e acordar ainda com ele.




Oh, Sandrinha, é maravilhoso o relato da tua viagem! Fiquei cheia de vontade de fazer as malas e repetir os teus passos embora, no meu caso, como sabes, não fosse assim tão fácil por causa dos miúdos que tenho lá em casa... mas tu não viajaste apenas fisicamente, pois não?
ResponderEliminarFico a aguardar ansiosamente pelo relatório da próxima, porque desconfio que não te vais ficar por aqui.
Beijinhos grandes
Helena
Minha querida filha,
ResponderEliminarÉ um privilégio constatar, todos os dias da minha vida, o ser humano maravilhoso que és e a pessoa linda, por dentro e por fora, que na realidade sempre foste. E, como se não bastasse, todos os dias acontecem novos momentos de magia e de elevação que são trazidos por ti, por via da tua coragem, da tua inesgotável energia e da tua dedicação às pessoas e às boas causas. Esta tua viagem é mais um fantástico episódio das nossas vidas e, apesar de ter ficado com um terrível "nervoso miudinho", por ser tão longe, por estares tão sozinha, por ser um terreno tão diferente e aparentemente adverso, sabia, como só uma mãe pode saber, que estavas Protegida e que tudo iria correr muito bem. Bem vejo que tudo valeu tanto a pena! Que grande experiência e afirmação! Não vou aqui dizer-te mais coisas porque já o fiz e continuo a fazer pessoalmente. Só quero mesmo deixar-te aqui um grande beijinho com muito amor e orgulho, e dizer-te obrigada por seres a filha maravilhosa que és:)